terça-feira, 23 de fevereiro de 2010



O UNISAL Lorena realiza neste dia 1º de março, segunda-feira, o Debate “O Futuro da Região”, com o objetivo de discutir como as Instituições de Educação Superior podem contribuir para o desenvolvimento do Vale do Paraíba e também partilhar ideias e perspectivas para o futuro da região.
Os debatedores convidados pelo UNISAL são o diretor da EEL-USP, Prof. Dr. Nei Fernandes de Oliveira Júnior; o vice-diretor da FEG-UNESP, Prof. Dr. Ângelo Caporalli Filho; o jornalista Rogério Correa, da TV Vanguarda; o Conselheiro Titular do CIESP - Taubaté, Prof. José Lourenço Júnior, que representará também o UNISAL; e um representante da FATEA.
O UNISAL convidou também a prefeita de Cruzeiro, Ana Karin, que vai falar sobre a atuação do poder público em prol do desenvolvimento da região. O Reitor do UNISAL, Pe. Edson Donizetti Castilho, será o mediador do debate.
Após a exposição dos integrantes da mesa, as discussões serão abertas para a participação dos estudantes, professores e convidados da plateia.
O debate terá início às 19h, no Teatro São Joaquim. A entrada é franca, mas as vagas são limitadas. Os interessados devem se inscrever neste site.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Seis ensinamentos para você ser um palestrante vitorioso

Reinaldo Polito

Às vezes vemos um palestrante bem-sucedido e ficamos curiosos para saber como foi sua trajetória para se projetar tanto. A receita é simples, mas exige empenho e muita dedicação. Um dos palestrantes mais famosos e requisitados nos últimos tempos é o Max Gehringer. Dá para aprender muito com ele.
Além da sua larga experiência como presidente de importantes empresas multinacionais, Max se tornou um dos mais brilhantes escritores da história corporativa brasileira. Faz grande sucesso como comentarista sobre carreira na Rádio CBN e no programa Fantástico, da TV Globo.
Acompanho sua trajetória há muitos anos, desde a época em que era dos principais articulistas das revistas "Exame", "Você S.A." e "VIP", antes de se transferir para a revista "Época". Onde põe a mão faz sucesso. Não poderia ser diferente com suas palestras. Conseguiu transferir para os palcos a mesma leveza e bom-humor dos seus textos. Veja seis ensinamentos desse craque da tribuna:

Primeiro ensinamento: escolhendo o tema. Ele escolhe o tema da sua palestra de maneira bastante criteriosa. As organizações que o contratam sabem que ele aplica determinado fio condutor em suas apresentações. A cada evento, entretanto, este sedutor de plateias usa sua larga experiência como principal executivo de grandes organizações e o conhecimento adquirido como estudioso dedicado da vida corporativa para adaptar o conteúdo aos interesses do cliente.

Essa capacidade de estabelecer correlação entre os ensinamentos da sua palestra e a aplicação prática na vida dos ouvintes faz com que todos levem uma mensagem útil para as diversas atividades que desenvolvem, seja no relacionamento social, seja na vida profissional.

Segundo ensinamento: conquistando os ouvintes. Logo nos primeiros momentos Max mede a capacidade de compreensão da plateia. Começa com uma isca sutil que sempre provoca a reação do público. Se as pessoas reagirem rápido e de forma intensa, o caminho será mais leve e tranquilo até o final.
Se, entretanto, a resposta for lenta, sabe que deverá voltar à página dois da cartilha e redobrar seus esforços para explicar melhor os pontos que irá abordar. Esse respeito à capacidade de entendimento do público é um dos motivos que o torna tão admirado.

Terceiro ensinamento: mantendo a atenção. Manter concentração dos ouvintes o tempo todo é uma obstinação para ele. Max é tão preocupado em segurar a plateia ligada do princípio ao fim da palestra que teve o cuidado de gravar a reação de diversos públicos enquanto se apresentava.
De posse das gravações analisou criteriosamente cada instante da sua apresentação para identificar quais os momentos em que o público começava a dispersar. Segundo ele, se os ouvintes se levantam muito para ir ao banheiro ou atender às ligações telefônicas tem algo errado com a palestra.
Para esses instantes críticos introduziu histórias interessantes e fatos bem-humorados que funcionam para recuperar e manter a atenção do grupo. Se você ficar do lado de fora da sala onde o Max se apresenta, irá constatar que suas brincadeiras funcionam, pois ouvirá risadas do público no máximo a cada dois minutos.

Quarto ensinamento: recuperando a concentração. Por mais que um palestrante se esforce, não tem jeito, depois de algum tempo alguns ouvintes ficam desatentos. O recurso preferido de Max para “trazer o público de volta à apresentação” é contar histórias pessoais bem-humoradas que estejam ligadas à realidade da assistência.
Esse artifício atinge vários objetivos. Além de mostrar o lado humano do palestrante, relaxa a plateia e mantém a concentração dos ouvintes. Essas histórias ajudam o público a se lembrar dos conceitos que foram discutidos. Passados meses e até anos, os ouvintes ainda se recordam das histórias que ouviram.

Quinto ensinamento: garantindo o resultado. Max se considera sempre mais um dente da engrenagem que movimenta o evento para ser bem-sucedido. Por isso, faz de tudo para que a sua participação ajude no resultado do encontro. Sendo assim, não admite falhas e exige muito profissionalismo do pessoal que dá suporte ao evento.
Procura não conversar com ninguém enquanto cada equipamento, cabo ou aparelho de som não esteja em perfeito funcionamento. Se você contratar o Max, tenha certeza de que ele cumprirá a parte dele, mas esteja certo também de que ele exigirá que você cumpra a sua.
Se, entretanto, algo der errado, não se preocupe, pois ninguém como ele sabe contornar os contratempos. Pouco antes de uma de suas palestras o local ficou sem energia. Enquanto todos se desesperavam por causa do incidente, com toda a tranquilidade ele se apresentou apenas com luz de vela. E, mais uma vez, foi um sucesso.

Sexto ensinamento: encerrando bem. A maior preocupação de Max é deixar uma mensagem que sirva de reflexão para os ouvintes. Ele aproveita o encerramento da palestra para deixar dicas práticas para que as pessoas possam aplicar no dia seguinte. Sua intenção é a de que esses conselhos tenham efeito multiplicador e se espalhem para todos os setores da empresa.
Max Gehringer, como eu disse no início, é, sem dúvida, um dos mais brilhantes palestrantes da história do país. Seu sucesso não chegou de um dia para outro. Construiu sua trajetória com muita disciplina e trabalho. Por que não aproveitar esses ensinamentos que já estão prontos, à nossa disposição?!

SUPERDICAS DA SEMANA
- Escolha um tema que atenda às expectativas dos ouvintes
- Conquiste a plateia logo no início
- Mantenha a atenção do público contando histórias interessantes
- Seja bem-sucedido garantindo o sucesso do evento de que participa
Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "O que a vida me ensinou", "Como falar corretamente e sem inibições", "Assim é que se fala" e "Superdicas para falar bem" (também em audiolivro), publicados pela Editora Saraiva

http://economia.uol.com.br/planodecarreira/artigos/polito/2010/01/26/seis-ensinamentos-para-voce-ser-um-palestrante-vitorioso.jhtm

data: 26/01/2010 - 13h43

domingo, 24 de janeiro de 2010

Um historiador pela relativização da História
Entrevista com François Dosse
16/12/2009



Aos 37 anos de idade um jovem historiador balançou os alicerces de um dos templos sagrados da historiografia francesa fundado há 80 anos, a École des Annales. O ano era 1987, o livro, A História em Migalhas, e o historiador, François Dosse, um dos conferencistas-chave do Panorama do Pensamento Francês Contemporâneo, escolhido a dedo para fechar o Ano da França no Brasil. O evento, resultado de uma parceria entre Globo Universidade, Casa do Saber e Zadig!, foi realizado no Rio de Janeiro, em novembro de 2009. Na ocasião, Dosse questionava a falta de foco político e o deslizamento dos “annalistas” para modismos, mentalidades, imaginários, escapando pela lateral dos fundamentos da Ciência Social e da interação com outras ciências, esmigalhando fatos sem fazer a ligação entre eles. Jacques Le Goff reagiu, segundo Dosse, “como vigia da fortaleza atacada”. Num artigo, Le Goff renegava o “esmigalhamento” de sua “matéria prima”, insinuando que o autor buscava os holofotes da mídia.
Aos 59 anos, Dosse não mudou uma linha de seu pensamento. A École des Annales, sim. Todos reviram suas posições e Dosse segue associado ao inovador Instituto de História do Tempo Presente (IHTP), atraindo não a mídia, mas ar fresco para a função do historiador que o erudito jesuíta Michel de Certeau (1925-1986) comparou à de “um coveiro”. Inovador em tudo, Dosse concedeu esta entrevista exclusiva ao site do Globo Universidade tratando das fronteiras entre História do passado, presente e futuro, da necessidade de testemunhas oculares para a veracidade dos fatos e da importância da memória na confecção da História. Trata também das biografias, tema de seu último livro traduzido para o português. E da omissão da história privada na construção de um personagem.
Seis de seus catorze livros foram publicados no Brasil, os cinco primeiros pela Edusc, O Império do Sentido: A Humanização das Ciências Humanas, A História em Migalhas: dos Annales à Nova História, A História (2003), História e Ciências Sociais (2004), História do Estruturalismo (2007), e, o último, pela Edusp, em 2009, O Desafio Biográfico: Escrever uma Vida.

Globo Universidade – É possível escrever uma História imediata se, como disse Primo Levi, é impossível analisar o presente pela absoluta falta de distanciamento dos fatos?
François Dosse – A importância de uma História imediata surgiu da interligação com o jornalismo, a partir da contribuição de Jean Lecoutre na Nova Enciclopédia da História em 1978. É escrever a História imediata fazendo referências ao passado, acrescentando uma dimensão histórica aos fatos cotidianos.

GU – Os jornalistas fazem história do cotidiano quando utilizam os mesmos instrumentos, fontes e testemunhos?
FD – Exatamente. Foi assim que nasceu o Instituto de História do Tempo Presente, com um Comitê de História criado para estudar a 2ª. Guerra Mundial. A ideia era recuperar arquivos, testemunhos e fatos ocorridos entre 1940 e 1945.

GU – Somente na França, para estudar Vichy e o colaboracionismo francês?
FD – No mundo inteiro, embora durante muito tempo o diretor do IHTP tenha sido Henry Rousso, especialista em Vichy.

GU – A História do presente terminava em 1944 ?
FD – Depois se estendeu para Maio de 68, o desaparecimento das figuras coloniais e outros episódios. Virou um laboratório importante pelo desafio epistemológico de estudar a história presente relacionada ao passado. Esse desafio dura 30 anos.

GU – Com esses instrumentos os historiadores julgam os fatos?
FD – Para isso é preciso focar presente e passado. Pela indeterminação e pela quantidade de dados que se tem nas mãos o que sobra são hipóteses, nunca a certeza do que iria se passar. Só que esse handicap torna-se uma chave importante, que nos permitiu uma releitura da Idade Média buscando na sociedade do passado a indeterminação do que era o presente para ela.

GU – E o que muda?
FD – A maneira como se escreve a História. Causalidade não funciona em História, não se deve procurar as razões dos fatos, mas testemunhos orais. Se você está escrevendo sobre Idade Média não há como ter testemunhas, pode procurar rastros, intuir coisas. Mas o historiador de tempo presente faz enquetes, escreve sobre o olhar dos personagens vivos. História do presente é cruzamento e articulação entre História e memória.

GU – Essa é a principal diferença entre jornalista e historiador?
FD – Se o jornalista é historiador como Lecoutre, que fez uma biografia de De Gaulle de mais 2.000 páginas em três volumes, então não há diferença.

GU – O jornalista escreve hoje sobre algo que aconteceu ontem para ser lido amanhã. Presente já é passado. O tempo não existe? A História imediata será alterada ao se tornar passado? Há diferença entre o conceito de antigo e moderno na História?
FD – Essa questão convida os historiadores a serem modestos, relativizar a História. As gerações futuras trarão novas perguntas, outros dados vão interferir porque os fatos não são estáticos. Haverá um deslocamento no olhar para o futuro da História que se escreve no presente sobre o passado. O que requer trabalho permanente, volta periódica aos fatos, e respeito a uma palavra inscrita na memória: “incansável”, que abriga ao mesmo tempo os limites e a grandeza do historiador.

GU – A História do presente é bem contemporânea de uma geração que não aceita a passagem do tempo, consome inclusive fatos de forma imediata. Mas quais as fronteiras cronológicas? A Guerra do Vietnã ou Maio de 68 são “presente” mesmo se resultem de um passado prolongado?
FD – Os limites não são tão claros. A História do tempo presente existe enquanto houver testemunhas vivas. O limite pode ser um acontecimento traumático, uma tragédia. O IHTP nasceu de um comitê de estudo da 2ª. Guerra. Mas a definição que prefiro é a que não se fixa nas barreiras cronológicas.

GU – Então, onde?
FD – Num fato que envolve um passado mais longínquo, mas surge reciclado no presente.

GU – Exemplo?
FD – Joana D’Arc. Tudo bem que seja uma figura da Idade Média, mas hoje podemos ler e reler Joana D’Arc porque ela participa do tempo presente por correntes e ideários políticos ou religiosos, ela existe na sociedade contemporânea como personagem e ícone, representada no cinema, no teatro, na pintura. Existe na consciência coletiva das pessoas. Não é metamorfose. É a ligação da memória viva com a memória morta, que revisita e trabalha a memória coletiva, campo de investigação do historiador do tempo presente.

GU – A História vista através do marxismo é presente ou passado? Porque Cuba, Coréia do Norte e China estão vivas hoje.
FD – Depende do que você entende por marxismo. Se entender comunismo, então, é mais do que parte do passado.

GU – Sim, se falamos da antiga URSS e da Cortina de Ferro...
FD – Não só. Uma sociedade totalitária não pode tornar a existir naqueles termos depois da queda simbólica do muro e da dissolução do bloco comunista. Não há amanhã. É gente de ontem, que trabalha o passado. A obra de Marx é outra coisa.

GU – A obra de Marx continua viva no presente?
FD – Há coisas a se aprender de Marx, não a filosofia da História ou ideologia, isso acabou. Mas no plano da análise crítica da sociedade e da economia.

GU – O marxismo morreu, Marx continua vivo?
FD – Eu diria de forma humorística, como Jacques Derida intitulou seu livro Spectres de Marx, que Marx continua vivo, mas como espectro.

GU – Como um fantasma?
FD – Isso mesmo (risos).

GU – Por falar em espectros, para que a História não seja um túmulo, metáfora do historiador como coveiro segundo Michel de Certeau, não seria fundamental a intervenção do intelectual na sociedade?
FD – Mas Certeau tinha razão. Por que falamos de tumbas? Porque os fantasmas não estão no nosso cotidiano e o passado é um fardo para as pessoas. Então é preciso honrar o passado, uma pessoa que enterra os ancestrais celebra seus mortos, reconhece sua dívida. Você passa à História com um crédito, o futuro virá mais livre e sem aquele peso nos ombros. O futuro será mais criativo porque esse é o trabalho do historiador, dar um passo à frente entre o passado e o futuro, avançar uma etapa.

GU – Você tira a perspectiva mórbida de Certeau.
FD – Ao contrário, ele falava em recriar futuro e vida.

GU – E quanto ao engajamento do intelectual? Em períodos como a recente ditadura brasileira de 21 anos, ou a França ocupada, não é obrigatório o engajamento de intelectuais?
FD – Essa é outra função importante do intelectual. Mas é preciso diferenciar. Uma a coisa é o engajamento radical contra um Estado ditatorial. As coisas são mais complicadas quando se vive numa sociedade aberta, democrática, sem oposição do bem e do mal. Cada questão precisa ser analisada por experts, um trabalho da razão prática. A escolha é mais difícil.

GU – Por quê?
FD – Porque não é entre o branco e o preto, mas entre o cinza e o cinza.

GU – Trata-se de distinguir camaleões, tonalidades...
FD – ... camafeus, de uma só cor. Por isso é um trabalho importante. Numa democracia deve-se dialogar, comparar pontos de vista diferentes, as pessoas escolhem a partir de argumentações fundamentadas. Tudo pode mudar. Mas há intelectuais em crise.

GU – Por exemplo?
FD – Jean-Paul Sartre nos anos 1950, 1960, a figura do intelectual “dreyfusard” na sua postura de revolta. Você contrapõe esse com outra figura que é aquela qualificada por Michel Foucault, o intelectual específico, que se recusa a falar de tudo e se restringe ao seu campo de competência.

GU – Para esclarecer o cidadão?
FD – Como fez o filósofo e pensador Paul Ricoeur participando de debates públicos sobre linguística, psicanálise, estruturalismo, um mestre em clarificar conceitos.

GU – E em reavivar a memória.
FD – Claro, a memória da História esquecida. Pensar junto, articular, fazer uma fenomenologia da memória, a epistemologia da História. Junto com isso a ética, a bioética, o lugar no nacional no universal. A grande obra de Ricoeur é justamente La Mémoire, l’histoire, l’oublie (publicada cinco anos antes de sua morte, em 2005).

GU – Esse papel às vezes é menos visível.
FD – Porque nesse caso o intelectual é mais modesto, faz trabalho de fundo, não se coloca como aquele que sabe tudo.

GU – O historiador François Hartog diz que a História é construída no cotidiano e feita por nós, agentes e ao mesmo tempo personagens da trama contemporânea. Só que não nos damos conta do nosso papel.
FD – Hartog é a favor de uma virada geral no regime de historicidade. Passar de um sistema fincado na tradição para uma projeção no futuro. Começa-se a pensar nisso no século XVII, atravessa-se o XIX e, no XX, dá-se a quebra desse sistema histórico, talvez pelo trágico desse século, não se pode falar em evolução continuada quando se vive duas guerras e a barbárie no coração dos países mais civilizados.

GU – Campos de concentração, fornos crematórios...
FD – Adorno dizia que não podemos pensar da mesma maneira depois de Auschwitz. O trágico século XX rompeu um otimismo histórico que dominou todo o XIX, começo do XX.

GU – Mas houve outras rupturas.
FD – O texto de Lévi-Strauss para a Unesco em 1952, Raça e História, mostrou que não há evolução continuada nem civilizações mais avançadas do que outras. Há, sim, uma partitura disponível para a humanidade. Algumas vão fazer a sinfonia em dó maior, outras em si bemol menor. Ele mostra que os melanesianos das ilhas ao norte da Austrália desenvolveram um sistema parental e uma criação artística muito sofisticada.

GU – Mais que os ocidentais?
FD – Os ocidentais ficaram com a tecnologia. Cada sociedade desenvolveu a sua potencialidade, sem hierarquias ou sociedades civilizadas.

GU – Nem selvagens.
FD – Se há selvagens, eles têm um sistema de pensamento que não é melhor nem pior, é “outro”. Então, se é que havia uma “religião da história”, ela começou a ser derrubada por Lévi-Strauss e pelos estruturalistas nos anos 1950. O estruturalismo ficou tão famoso que, uma década depois, o técnico de uma equipe francesa de futebol em crise disse que reorganizaria a equipe de maneira “estruturalista”... (risos).

GU – Hartog levantou outra questão. Os fatos históricos são estudados corretamente, os mecanismos de triagem são os mais adequados? O que sabemos nós, vivos e mortos, uns dos outros? E, afinal, para que serve a História? Há uma ou muitas Histórias integradas em temporalidades diferentes, espirituais, ideológicas, como a História do ponto de vista marxista, ou religioso?
FD – O modelo de identificação da História pelo particular é ultrapassado. Estamos fazendo uma História “de segundo grau” como a cunhou (o historiador) Pierre Nora, mais reflexiva, que se interroga sobre conceitos e questões do tempo, da verdade. Não dá para fazer História baseado em causas. Hoje os historiadores colocam a própria História em questão: “Para que vai servir?”, “as fontes são autênticas?”.

GU – Mas um historiador também pode se enganar.
FD – Porque mesmo fazendo trabalho de formiguinha, o historiador não fez tudo, não é só a factualidade que conta, mas o senso simbólico. E o falso pode se tornar verdadeiro quando há um efeito social. Nora deu um bom exemplo em Les Lieux de Mémoire que dirigiu na Gallimard em três volumes (A República, A Nação, A França, de 84 a 92) quando fala do soldado Chauvain, extremamente popular nos séculos XIX e XX a ponto de introduzir um qualificativo na língua francesa.

GU – O termo “chauvinisme” vem daí?
FD – Vem, de um soldado do século XIX que tem sua história contada, da vida pública à pessoal, com endereço de moradia e tudo... Só que um doutorando resolveu pesquisar e descobriu que esse soldado nunca existiu.

GU – Foi uma criação?
FD – Fantasmagórica, e está aí um exemplo de algo falso que se tornou verdadeiro, utilizado como exemplo por historiadores para descrever combatentes de várias guerras, “era como o soldado Chauvain...”.

GU – Há criações propositais em romances históricos, como os de Marguerite Yourcenar, Barbara Tuchman...
FD – Há muito a aprender na ficção. A História cortou o cordão umbilical com a literatura e se profissionalizou no fim do século XIX, quando virou disciplina universitária. Antes, os historiadores eram estudantes de Letras, por isso viram as costas à literatura.

GU – No seu caso...
FD – No meu caso a literatura faz enorme sentido, mas os historiadores gostam de dizer que se livraram do micróbio literário, o que não é verdade, principalmente entre os românticos. A fonte em que bebiam era Walter Scott (escocês, 1771-1832, criador do verdadeiro romance histórico).

GU – A literatura tem uma liberdade que a História não tem.
FD – E ensina muita coisa, é quase uma ressurreição do passado. O livro que ganhou o prêmio Goncourt no ano passado, Les Bienveillantes de Jonathan Littell.

GU – O senhor não se arrepia com História romanceada? Lê Asterix com prazer, por exemplo?
FD – Mas claro!

GU – O senhor se arrepia com a informática que vai dar sumiço nas correspondências de papel e substituiu o tempo real pelo virtual?
FD – Será que os arquivos vão desaparecer?

GU – Aí será fácil romancear a História...
FD – Não vai acontecer, está tudo estocado no hard disc.

GU – Romancear é uma tentação. O senhor acaba de lançar no Brasil O Desafio Biográfico. É possível escrever a vida de um personagem vivo sem falsificar fatos e sem esconder o “podre”, a vida privada?
FD – Concordo que não se pode separar um personagem de seus afetos, a vida pública da privada, um personagem é uma totalidade. Mas há artifícios. As que escrevo chamo de biografias intelectuais. Cortar a vida pessoal é um artifício. Escrevi sobre Ricoeur, Certaud, Deleuse e Guattari, Pierre Nora. O que me atrai são os contemporâneos.

GU – O que traz o dilema: se permitem vasculhar a vida pessoal.
FD – Então procuro a singularidade dos gestos, a relação com o mundo, a maneira de ser. Enfoco a questão psicológica, psicanalítica. Embora uma biografia não possa ter a ambição de colocar qualquer um no divã, procuro o fato marcante, traumatizante, o itinerário.

GU – Mas continua faltando o lado íntimo.
FD – Claro, é limitante, um terreno que me escapa. Por exemplo, Nora é um historiador importante, responsável pela Gallimard. Diretor de uma das revistas de ponta, Le Débat, mas há domínios onde não posso entrar, talvez os mais interessantes...

GU – A vida amorosa...
FD – Justamente, a vida amorosa, e você teria surpresas... (risos). Mas Nora é uma referência entre os historiadores franceses.

GU – A vida amorosa dele vai entrar?
FD – Não, ele não me deu permissão.

GU – Você pode fazer a pesquisa...
FD – Mas é difícil. Esse é o problema de biografar contemporâneos.

GU – Então só temos a verdade completa dos mortos, porque a vida amorosa influencia bastante.
FD – Essa inserção é mais comum entre os anglo-saxões, os franceses separam a vida pública da íntima.

GU – Quando a coisa vem à tona é como aconteceu com François Mitterrand?
FD – Mas o fato de ter uma filha fora do casamento não muda o personagem político.

GU – E com Sarkozy?
FD – A vida pública dele é muito anglo-saxã.

GU – Sarkozy sem Carla Bruni é outra pessoa?
FD – Eu diria metade de uma pessoa (risos).

GU – Os historiadores dizem que biografia não é História; os escritores, que biografia não é literatura; e então, esmagada, a biografia acaba sendo feita por jornalistas...
FD – Biografia é um gênero desprezado por todo mundo. Chamo de eclipse da biografia. Até pouco tempo eu me apresentava assim, “não diga a minha mãe que eu escrevo biografia, ela acha que eu sou pianista num bordel”... (risos). O bordel tinha mais cachê do que esse gênero impuro.

GU – Porque trabalha entre o autêntico e a imaginação?
FD – Plutarco (maior biógrafo da Antiguidade Clássica, viveu entre os anos 50 e 120) escrevia para dizer que os gregos eram melhores do que os romanos e vice-versa. Para ver melhor a psicologia de cada um e ressaltar vícios e virtudes. No final, valia sempre a virtude. Ele dizia que escrevia livremente, por exemplo, sobre Cesar, se faltavam elementos factuais, pouco importava. Quando escreve sobre a Guerra do Peloponeso (século V a.C.) diz: “Não escrevo apenas o que eu vi, mas o que me disseram e esses fatos controlei eu”. Quem lia Plutarco sabia que era assim.

GU – Hoje não se faz uma biografia assim.
FD – Nesse livro que saiu no Brasil eu falo no pacto biográfico, o pacto com o leitor que não existe nas autobiografias. Nunca temos todas as fontes nem há uma transparência total.

GU – Então passa pela imaginação.
FD – Pela subjetividade, a projeção do biografado, sua interação com o outro. O que não avaliza a biografia, por que o que faz o historiador?

GU – Faz isso também.
FD – É claro, se ele é um historiador da Idade Média. Como diz George Duby, (especialista em Idade Média, 1919-1996) ele tem necessidade da imaginação, de se transportar. Hoje até que a biografia está indo bem, vive um boom, historiadores que se colocavam acima do bem e do mal, “sou sério, atenção”, dão as mãos e os pés aos editores para escrever uma biografia, o gênero saiu do purgatório para a glória (risos). Os que profetizaram a morte da biografia passaram anos, como Jacques Le Goff, 15 anos, escrevendo a vida de Saint Louis (rei Luis IX).

GU – Hoje se escreve a vida de todo mundo.
FD – Até sem pesquisar dossiês, nem arquivos, nem traços, como um fabricante de tamancos do século XIX de quem Alain Corbin fez uma biografia detalhada, sobre a família e a vida pessoal, sem saber de nada e sem ler nada porque sabia que lhe fariam injustiça.

GU – Hoje se escrevem muitas “biografias definitivas”.
FD – Não existem. É uma ilusão. Há biografias possíveis, que desmitificam, como a de Saint Louis, mas não definitivas.

GU – E há os biógrafos profissionais.
FD – Mitterrand tem biografias feitas por todo mundo, às vezes enriquece, às vezes é o descrédito total. Há mercenários em todas as áreas, por que não na biografia?

Entrevista realizada por Norma Couri, em novembro de 2009, no Rio de Janeiro.
Fotos de Renato Velasco.

Link : http://globouniversidade.globo.com/GloboUniversidade/0,,AA1707253-8745,00.html

sábado, 23 de janeiro de 2010

Historiadora retrata Helena, a mulher que "causou" a guerra de Troia


Afresco batizado de "senhora de Micenas" dá pistas sobre as aristocratas gregas; historiadora retrata Helena, da guerra de Troia


REINALDO JOSÉ LOPES da Folha de S. Paulo

A Grécia do fim da Idade do Bronze era um lugar tão esquisito que um viajante do tempo familiarizado com os gregos da época de Sócrates e Platão provavelmente ia achar que se perdeu num universo paralelo.
Em vez de filosofia, participação popular na política e soldados-cidadãos, o turista temporal ia se deparar com templos-palácios suntuosos, túmulos faraônicos para a nobreza, escribas controlando a distribuição de cada bezerro e cada grão de cevada.
As pessoas já falavam uma forma arcaica de grego, mas, tirando isso, seria possível jurar que eram babilônios ou egípcios. Nesse mundo, diz Bettany Hughes, viveu a lendária Helena de Troia.
Hughes, historiadora por Oxford, conseguiu construir uma narrativa erudita e envolvente em "Helena de Troia", recém-lançado no Brasil.
Ao tentar investigar a existência de uma "Helena histórica" (mais ou menos como outros tentam recriar o "Jesus histórico" ou o "Sócrates histórico"), a historiadora anda com desteza pelas ondas de choque que surgem do mito da mulher mais bela do mundo.
Espartanas da época clássica, turistas romanos, pintores vitorianos e poetas modernistas --todos, em alguma medida, transformaram Helena em musa.
Mas, para Hughes, o melhor modelo para entender a personagem de Homero são as aristocratas do Egeu na Idade do Bronze tardia, pouco antes do ano 1200 a.C. Elas eram, de fato, retratadas de forma que faria corar suas descendentes mais recatadas --e indefesas-- do período clássico da Grécia.

Poderosas


Afrescos, joias e objetos de arte deixados pela civilização micênica, como é conhecida essa versão "faraônica" da cultura grega por causa de Micenas, seu principal centro, sugerem um papel social significativo para mulheres belas e imponentes.
Seguindo, ao que tudo indica, a moda cretense (povo anterior que os gregos micênicos conquistaram e absorveram culturalmente), muitas delas aparecem com corpetes apertadíssimos que deixavam os seios descobertos --às vezes com mamilos realçados por maquiagem.
Cenas que parecem ser de rituais, envolvendo espadas, joias, o Sol e a Lua, árvores e danças enigmáticas, também são quase sempre protagonizadas por mulheres nos afrescos micênicos.
Uma das damas é retratada com armadura completa e elmo feito de presas de javali na cabeça --apetrecho guerreiro que, em outros exemplos de arte micênica, só aparece associado a homens.
Assim como outros, Hughes postula que as mulheres micênicas tinham o papel de senhoras e sacerdotisas da fertilidade (daí o holofote iconográfico sobre suas curvas e seios), o que lhes conferia prestígio político.
A beleza e a feminilidade da Helena do mito, portanto, sinalizaria algo mais do que mera estética: uma dama poderosa, talvez com status semidivino, venerada por seus súditos.
A segunda peça importante do quebra-cabeça da "Helena histórica" fica do lado leste do estreito de Dardanelos. Escavações na Turquia ao longo dos séculos 19 e 20 revelaram que a localização atribuída tradicionalmente a Troia realmente abrigava uma cidadela imponente no fim da Idade do Bronze, e que a fortaleza foi destruída por volta de 1200 a.C.
Textos nos arquivos do Império Hitita, então estabelecido mais para o interior turco, sugerem que a área de Troia era um ponto de tensão entre micênicos e hititas. Assim, não seria inconcebível que Troia tivesse mesmo sido destruída por atacantes gregos, usando a bela Helena como pretexto.

Dificuldades

O quadro geral faz um bocado de sentido, mas é nesse ponto que a musa de Hughes acaba deixando a historiadora na mão. É um bocado difícil fazer o salto entre os incidentes e personagens específicos de Homero na Ilíada e o quadro relativamente impessoal das relações entre micênicos e asiáticos que aparece nos arquivos hititas.
E certamente não há quaisquer referências diretas a Helena, seu marido corneado Menelau e os guerreiros gregos Aquiles e Odisseu (Ulisses) nos textos diplomáticos do Império Hitita.
Também é possível interpretar a iconografia "feminista" dos micênicos como mero peso morto cultural, já que eles copiaram avidamente os sofisticados cretenses (assim como, mais tarde, os romanos copiaram os gregos) sem necessariamente aderir aos mesmos valores sobre o papel das mulheres.
Por último, como a própria Hughes relata, os palácios micênicos na Grécia continental, bem como outras cidadelas poderosas do Mediterrâneo Oriental, acabaram tendo o mesmo destino de Troia no espaço de uma ou duas gerações: foram arrasadas por aparentes invasores. Não é impossível que, na verdade, os micênicos tenham sido apenas vítimas, tal como os troianos.
Nenhum desses pecadilhos, no entanto, tira o sabor da obra. Tal como na guerra de Troia, Helena é um belo pretexto para um cenário muito maior e mais fascinante do que ela própria.

Folha online: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u666118.shtml
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